PÉ DIABÉTICO: E SE FIZÉSSEMOS PREVENÇÃO DE FATO?

PÉ DIABÉTICO: E SE FIZÉSSEMOS PREVENÇÃO DE FATO?

Fonte: Sociedade Brasileira de Diabetes

Informações do Autor

Dra. Cândida Parisi

Médica Clínica

Coordenadora do Departamento de Pé Diabético da SBD

Não existe discordância: pacientes diabéticos com complicações nos pés são situações que, na maior parte dos casos demanda atenção terciária, complexa, multiprofissional, internação, quando não, procedimentos cirúrgicos e ás vezes até amputações. Este quadro já está bem desenhado, a, por ora, com poucos retoques a acrescentar.

Recordo que, quando comecei a trabalhar com esta complicação, no final dos anos 80, inícios dos anos 90, textos da IDF (International Diabetes Federation) apontavam para duas situações: uma que, a cada 30 segundos algum diabético no mundo sofria amputação de membros inferiores por causa de complicações relacionadas ao pé diabético, e outra que afirmava que 85% destas amputações poderiam ser evitadas com medidas preventivas adequadas. Passaram-se quase trinta anos e agora as publicações mais recentes desta mesma entidade relatam que agora o quadro está ainda pior: uma amputação a cada 20 segundos. Entretanto, continua ecoando a mensagem: 85% destas amputações poderiam ser evitadas com medidas preventivas adequadas...

Neste momento começo uma reflexão muito simples, levando em conta o número cada vez maior de diabéticos em todo o mundo e, em particular em nosso país, vivemos uma situação indiscutível: precisamos intensificar ainda mais práticas de detecção e prevenção do chamado pé de risco para úlcera. Avaliar a presença da perda de sensibilidade protetora (monofilamento de 10 g e diapasão de 128htz), de alterações na palpação de pulsos podálicos (pedioso e tibial posterior), avaliação de deformidades e alterações de pressão plantar como calosidades, são medidas que não requerem profissional altamente especializado (assim como orientações sobre cuidados com os pés no cotidiano, orientação de calçados adequados...). Ao contrário, são práticas que podem ser partilhadas, tanto por profissionais médicos como por profissionais das equipes de saúde. Seguindo modelos de sucesso mundo afora, ampliar o papel dos demais profissionais envolvidos no atendimento ao diabético, tanto na detecção, como nas orientações de prevenção: funciona. Sempre, o atendimento partilhado, tanto nas ideias como nos objetivos tem capacidade de ampliar os resultados.

Nosso país é gigante, continental e as estruturas terciárias ainda são poucas para a demanda dos casos onde a complicação está instalada, entretanto não podemos deixar de nos responsabilizarmos pelos os casos onde, antes da complicação, da úlcera instalada, não fizemos a orientação de cuidados. Este tipo de realidade ainda é um fato muito presente no nosso cotidiano. Um trabalho de iniciação científica que acompanhei há uns anos atrás perguntava aos pacientes com caso novo, diga-se úlcera nos pés, que chegavam ao meu serviço terciário: “O sr/sra já fez algum exame do pé antes de desenvolver esta úlcera aqui?” E a resposta, para nossa grande angústia era que mais de 95% dos casos nunca haviam recebido nenhum tipo de exame nos pés, que nunca haviam sequer tirado o calçado durante as consultas de rotina. Ora, vamos lá, existem os casos que o acaso, que por mais que façamos orientação e prevenção, vão apresentar úlcera, mas uma grande parte das úlceras que ainda estão por vir poderão ser evitadas se fizermos a nossa parte: vamos examinar, vamos avaliar a presença de risco e vamos orientar medidas de prevenção.

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