DIABETES E INTOLERÂNCIA AO GLÚTEN

“Há mais mistérios entre o céu e a terra, do que toda a nossa vã filosofia.”

Esta frase de William Shakespeare pode muito bem ilustrar o tema deste texto: intolerância ao glúten a diabetes tipo 1 estão relacionados?

Antes de tudo, é preciso explicar que a intolerância ao glúten, chamada de doença celíaca, é uma doença que acomete o intestino. Ela acontece porque o organismo da pessoa não reconhece a proteína do glúten e uma reação de defesa autoimune é desencadeada. O resultado é a destruição das células do intestino que são responsáveis por absorver os alimentos.

Os sintomas comuns da doença celíaca são diarreia e cansaço, e nas crianças, por não conseguirem absorver corretamente as vitaminas e sais minerais, pode ocorrer redução do crescimento e desenvolvimento. No entanto, uma parte das pessoas que tem doença celíaca é assintomática, isto é, não apresenta qualquer sinal ou sintoma da doença.

Foi observado que pacientes diabéticos tipo 1 apresentam mais chances de desenvolver doença celíaca, comparados com a população geral. Isso está relacionado ao fato de que o diabetes tipo 1 também é uma doença autoimune, ou seja, ocorre quando o próprio sistema imune da pessoa acaba destruindo as células produtoras de insulina, chamadas células Beta do pâncreas.

Mas por que existe essa associação?

Aí está um dos mistérios do nosso organismo que estão sendo desvendados nos últimos anos através das pesquisas genéticas. Cada pessoa apresenta um código de reconhecimento para o sistema imunológico, que é chamado de complexo maior de histocompatibilidade, codificado através do nosso DNA.

Em algumas pessoas esse código de reconhecimento está com alguma alteração e as células de defesa passam a enxergar as células do próprio corpo (como no caso das células beta do pâncreas) como inimigas e as atacam. Outras vezes, reconhecem alguns alimentos, como no caso do glúten, como inimigos e ocorre uma ativação do sistema inume. Ainda existe a possibilidade de quando o sistema de defesa entra em contato com alguns vírus, acontecer um reconhecimento deste vírus como algum código de célula que esteja codificado no complexo de histocompatibilidade, como uma reação cruzada. A consequência é que o sistema imunológico passará a atacar o próprio corpo.

Dessa forma, a explicação para que as pessoas com diabetes tipo 1 sejam mais propensas a desenvolver doença celíaca é uma alteração justamente neste complexo maior de histocompatibilidade. Sabe-se que uma em cada 3345 pessoas no mundo terá doença celíaca sintomática, e uma a cada 200 ou 300 terá a forma assintomática. Já se estima que cerca de 2 a 10% dos pacientes com diabetes tipo 1 tenha alguma forma de doença celíaca.

Para os pacientes com diabetes tipo 1, é importante uma boa conversa com seu médico para avaliar a necessidade de pesquisar se a pessoa tem ou não doença celíaca. A principal modificação na dieta é a retirada do glúten, que está presente no trigo, cevada, centeio e aveia. A realização da dieta melhora a saúde geral da pessoa e permite que o controle do diabetes seja mais adequado. Alguns estudos até indicam melhora dos níveis de glicose no sangue com o controle do glúten na dieta daqueles que tem o diagnóstico de doença celíaca.

Para finalizar, é importante destacar que com o avanço dos estudos científicos, cada vez mais o tratamento do diabetes, tanto o tipo 1 quanto o tipo 2, passa a abranger mais aspectos e a também avaliar o paciente cada vez mais de forma global. Muito já se foi e está sendo estudado e muitos mistérios ainda estão para serem descobertos.

Informações do Autor

Dra. Andressa Heimbecher Soares

EndocrinologistaEspecialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

Médica colaboradora do Grupo de Obesidade e Síndrome Metabólica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Membro Titular da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e Membro Ativo da Endocrine Society.

Fonte: Portal da SBD

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