Diabetes insípidus

Autor: Felipe Henning Gaia Duarte, endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabolismo e especialista Minha Vida (CRM-SP 103254)

O que é Diabetes insípidus?

Diabetes insípidus consiste em um distúrbio de controle da água no organismo, no qual os rins não conseguem reter adequadamente a água que é filtrada. Como consequência, o paciente passa a apresentar um aumento no volume de urina (poliúria), que ultrapassa facilmente os 3 litros por dia, podendo chegar a mais de 10 litros de urina.

O nome insípidus vem do fato da urina ser bastante diluída e por isso “sem gosto”, ao contrário do diabetes melittus, no qual o paciente perde muita água e açúcar pela urina (quando o diabetes está descompensado), podendo ficar “doce”.

Causas

Diabetes insípidus central

As principais causas de diabetes insípidus central são tumores que acometem a região hipotalâmica hipofisária, como por exemplo:

Germinomas

Craniofaringioma

Metástases de outros tumores fora do sistema nervoso (pulmão e mama).

Diabetes insípidus central também pode ser causado por doenças inflamatórias do sistema nervoso central, como sarcoidose, histiocitose e por doenças autoimunes como as hipofisites. O trauma do sistema nervoso central após acidentes também podem causar DI.

Outras causas menos comuns são:

–Infecções: toxoplasmose, meningite, encefalite;Doenças autoimune: infundibulite, Lupus;Toxinas: veneno de cobra, tetrodotoxina;Alterações vasculares: Síndrome de Sheehan, encefalopatia hipóxica;Doenças genéticas, como por exemplo: Síndrome de Wolfram, mutações no gene do ADH, displasia septo-ótica, etc.;Idiopática (causa desconhecida).

Diabetes insípidos nefrogênico

O diabetes insípidus nefrogênico pode ser causado principalmente por uso de medicamentos tóxicos aos rins, como por exemplo em pacientes que usam Lítio, anfotericina B, demeclociclina dentre outros medicamentos. Também pode ocorrer em crianças, devido mutações genéticas que alteram o receptor do ADH ou proteínas relacionadas a sua função. Causas menos comuns de ADH estão listadas abaixo:

Causas genéticas

–Mutação recessivo ligado ao X (receptor V2);Mutação no gene da Aquaporina 2 (Autossômica recessiva);Mutação no gene da Aquaporina 2 (Autossômica dominante).

Causas adquiridas (doenças):

–Metabólicas (hipocalcemia, hipopotassemia);Obstrução crônica renal;Doenças vasculares renais (anemia falciforme, isquemia renal);Doenças granulomatosas (sarcoidose);Neoplasia (sarcoma);Infiltração renal (amiloidose);Idiopática (causa desconhecida).

Tipos

O diabetes insípidos pode ser subdividido de acordo com a origem do problema em:

Diabetes insípidus central

O diabetes insípidus central tem origem no sistema nervoso central. O hipotálamo e a hipófise (glândulas localizadas na base do cérebro) são responsáveis pela produção do hormônio antidiurético, abreviado por ADH e também chamado de vasopressina. Este hormônio age nos rins estimulando a reabsorção de água e impedindo que percamos este item pela urina. Quando acontece alguma lesão nestas estruturas, de modo a comprometer a produção e/ou liberação do ADH, ocorre a queda das concentrações deste hormônio no sangue e assim os rins perdem a capacidade de reter a água filtrada, que escapa através da urina em grandes quantidades.

Diabetes insípidos nefrogênico

No caso do diabetes insípidus nefrogênico, o hipotálamo e a hipófise funcionam corretamente e produzem quantidades adequadas do ADH. No entanto, este hormônio não funciona bem devido a um problema originado nos próprios rins.

Diabetes insípidus gestacional

O diabetes insípidos gestacional é uma forma fisiológica de diabetes insípidus que ocorre na gravidez, devido a produção de uma enzima produzida pela placenta, chamada vasopressinase, que degrada o hormônio ADH levando ao aumento da urina. Em geral é autolimitada, normalizando ao término da gravidez.

Fatores de risco

Os fatores de risco conhecidos são: a presença de alguma destas doenças, listadas anteriormente no paciente ou o uso de medicamentos que possam danificar o rim. Em pacientes com histórico de doenças genéticas na família, pode haver risco aumentado de diabetes insípidus.

Sintomas de Diabetes insípidus

Os pacientes com diabetes insípidus vão apresentar um volume de urina muito grande, acima de 3 litros por dia (mais que 50 mL/kg/dia). Associado, o paciente apresenta sede intensa, com preferência por líquidos gelados. A urina se apresenta bastante clara e diluída. Como a doença é constante, os pacientes também acordam bastante para urinar a noite (noctúria).

Diagnóstico de Diabetes insípidus

O diagnóstico é feito através da análise do histórico clínico e por meio de exames de sangue e de urina, nos quais se avaliam as concentrações de sódio, glicose, a osmolaridade do sangue e da urina, e através da confirmação do volume urinário realizado através da medida de 24 horas.

Após esta etapa, pode ser necessário realizar um teste funcional para se definir a origem do diabetes insípidus, se central ou nefrogênico. Este teste chama-se: teste da restrição hídrica (ou seja, restrição de água). Neste procedimento, geralmente feito internado, o paciente é colocado em jejum de água e exames são feitos a cada 2 horas até que certos critérios laboratoriais ou de perda de peso sejam alcançados. Neste momento é aplicado uma dose do hormônio sintético desmopressina (semelhante ao ADH humano) e observa-se a resposta no volume urinário e nos demais exames laboratoriais realizados posteriormente. Com este estudo consegue-se definir o tipo de diabetes insípidus numa parcela dos casos.

A dosagem do ADH pode auxiliar neste processo, mas este hormônio não é realizado na rotina pela grande maioria dos laboratórios.

Em geral são feitos exames de sangue e urina e pode ser necessário realizar um exame de ressonância magnética da hipófise e/ou exame de imagem das vias urinárias. Se causas especificas, como por exemplo, sarcoidose, estiverem sendo cogitadas, serão realizados exames direcionados.

Tratamento de Diabetes insípidus

Quando possível trata-se a situação que esteja causando o diabetes insípidus, como por exemplo, trocando o Lítio por outro medicamento, quando este é a causa da doença. Quando a doença que está causando o diabetes insípidus não pode ser diretamente tratada, existe a possibilidade de controlar do diabetes insípidus usando um medicamento chamando desmopressina (também conhecido por DDAVP), que é uma molécula semelhante ao ADH humano. Este medicamento ajuda a controlar muito bem o volume urinário, em especial no diabetes insípidus central.

Complicações possíveis

Com relação ao diabetes insípidus, isoladamente, a principal complicação é a desidratação. Nos pacientes com sensação de sede normal e com acesso normal a água, o maior inconveniente é ter de beber água constantemente e ir ao banheiro com muita frequência. O sono também pode ser severamente prejudicado pelas idas noturnas ao banheiro e pelo despertar para beber água.

A situação de maior risco para o diabetes insípidus é naqueles casos que a pessoa perde a consciência e não pode beber água corretamente, como pode ser o caso de pacientes acidentados ou que não informem esta condição a equipe médica previamente a uma cirurgia. Nestes casos o paciente pode desidratar severamente, podendo ocorrer complicações sérias.

Expectativas

Depende da causa do diabetes insípidus. Porém, mesmo naqueles casos onde a cura não é possível, o controle da doença pode ser bem adequado com o uso de medicamentos.

Prevenção

Em geral, a maior parte das causas de diabetes insípidus não são preveníeis.

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