CONSUMO DE OVOS, RISCO DE DOENÇA CARDIOVASCULAR E DIABETES

Artigo comentado: Am J Clin Nutr 2013; 98:146-59. Egg consumption in relation to risk of cardiovascular disease and diabetes: a systematic review and meta-analysis. Schin JY, Xun P, Nakamura Y, He K.

A associação entre o consumo de ovos, doença cardiovascular e diabetes é frequentemente questionada e ainda não está totalmente esclarecida. Estudo recente de revisão sistemática e meta-análise tentou novamente investigar esta possível relação.

O estudo incluiu 22 coortes independentes de 16 trabalhos publicados até março de 2012, incluindo entre 1.600 e 90.735 participantes com follow-up entre 5,8 e 20 anos. O consumo de ovos foi considerado como alto quando superior a um ovo por dia e baixo como inferior a um ovo por semana ou nunca.

O alto consumo de ovos, quando comparado com baixo consumo, resultou em discreta redução do risco de doença cardiovascular e mortalidade cardíaca, com Hazard Ratio (HR) de: 0,96 para todas as causas de doença cardiovascular, 0,97 para doença cardíaca isquêmica, 0,93 para infarto, 0,98 para mortalidade por doença cardíaca isquêmica e 0,92 para mortalidade por infarto. Ou seja, o consumo de mais de um ovo por dia não foi associado com nenhuma causa de doença cardiovascular ou mortalidade cardíaca na população geral. Entretanto, o consumo de mais de um ovo por dia aumentou o risco de desenvolver Diabetes Mellitus Tipo 2 (HR de 1,42) quando comparado com indivíduos que consumiam menos de um ovo por semana ou que não consumiam ovos.

Em indivíduos diabéticos, 4 coortes foram incluídas para avaliar a relação entre o consumo de ovos e o risco de doença cardiovascular (totalizando 7.549 diabéticos com média de 9,5 anos de follow-up) e 3 coortes para avaliar associação entre consumo de ovos e mortalidade cardíaca (totalizando 1.529 diabéticos em 13,8 anos de follow-up). Diferente da população em geral, nos diabéticos o alto consumo de ovos resultou em aumento de eventos cardiovasculares, com HR de 1,69 para todas as doenças cardiovasculares. Ou seja, para os indivíduos com diabetes o consumo de mais de um ovo por dia aumentou em 69% o risco de desenvolver doença cardiovascular quando comparado com o consumo de menos de um ovo por semana ou nunca. Entretanto, o alto consumo de ovos não foi associado com aumento do risco de mortalidade cardíaca.

Os autores sugeriram que a associação entre o alto consumo de ovos e o aumento do risco de doença cardiovascular na população diabética pode ser devido ao elevado risco de doença cardiovascular já conhecido nesta população, e que aumenta mesmo com pequenas elevações nos níveis de colesterol. Ainda, a hiperglicemia não controlada pode resultar em aumento da síntese de colesterol e de triglicerídeos. Em contrapartida, esta mesma revisão cita o estudo de intervenção publicado no British Journal of Nutrition em 2011 no qual uma dieta hiperproteica com restrição calórica, associada ao consumo de 2 ovos/dia por 12 semanas resultou em aumento do colesterol HDL quando comparado com dieta hiperproteica com restrição calórica e baixo consumo de colesterol - na qual o ovo era substituído por 100g de proteína animal magra.

Apesar do risco aumentado de doença cardiovascular nos diabéticos que consumiam mais de um ovo por dia e do aumento do risco de desenvolvimento de Diabetes Mellitus tipo 2, o estudo conclui que estes resultados devem ser interpretados com cautela e que não justificam alterações na recomendação diária de ovos até surgirem novas evidências cientificas.

Esta revisão sistemática permite concluir novamente que na ciência da nutrição os alimentos não devem ser julgados como “vilão” ou “mocinho”. Nos últimos anos a tradicional proibição do consumo de ovos foi substituída pela liberação indiscriminada do seu consumo, mas é preciso ter cautela e individualizar esta recomendação. O ovo é uma proteína de alto valor biológico e fonte de diversos nutrientes e deve fazer parte da alimentação, inclusive em pacientes diabéticos. O consumo total de colesterol dietético e gorduras, entretanto, deve ser considerado para evitar aumento de risco de doença cardiovascular. É importante destacar que o ovo é uma excelente opção de proteína, mas que deve substituir o consumo de outra proteína, e não ser acrescentado de maneira ilimitada.

Leitura Complementar: Pearce KL, Clifton PM, Noakes M. Egg consumption as part of an energy-restricted high-protein diet improves blood lipid and blood glucose profiles in individuals with type 2 diabetes. Br J Nutr 2011; 105:584–92.

Informações do Autor

Dra. Leticia Fuganti Campos

Nutricionista Clínica da NUTROPAR (Curitiba-PR)

Mestre pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

Pós-Graduada em Educação em Diabetes pela UNIP e em Nutrição Clínica pelo GANEP

Especialista pela Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral

Treinamento no Joslin Diabetes Center/ Harvard

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