EXERCÍCIO FÍSICO NA NEUROPATIA PERIFÉRICA

É sabido que um estilo de vida saudável, adepto à prática de exercícios físicos e dieta adequada podem contribuir no controle da diabetes e suas complicações crônicas (1).

Várias pesquisas confiáveis tem demonstrado que os exercícios aeróbios, de força e combinados (junção dos dois tipos citados em uma única sessão) tem sido capaz de auxiliar na redução da HbA1c, melhorar a capacidade funcional, melhorar a força física e o controle glicêmico, independentemente do controle do peso corporal (2,3,4,5,6).

Os pacientes com dor neuropática diabética devem, após uma consulta com seu médico, iniciar um programa de atividades físicas bem orientado e supervisionado por um profissional capacitado.

Pesquisas tem demonstrado que tanto o exercício de força quanto o exercício aeróbio, são seguros para os pacientes com diabetes acometidos pela neuropatia diabética.

Os estudos de Lemaster em 2003 e Armstrong em 2004 por exemplo, não perceberam relação no aumento de risco de úlceras em pacientes que praticaram exercícios de força (7,8)

Resultados semelhantes foram encontrados por Lemaster e colaboradores em 2008, quando o exercício combinado (caminhada + exercícios com peso na mesma sessão de exercício) também não causou uma maior incidência de úlceras nos pés de pacientes com neuropatia diabética, quando comparados com o grupo controle que recebeu apenas orientações sobre cuidados com os pés ao invés de participar do programa de exercícios citados (9).

Embora os efeitos benéficos do exercício físico no auxílio do controle da diabetes vem sendo demonstrado de forma cada vez mais clara, seus efeitos sobre a neuropatia diabética ainda necessitam ser melhor esclarecidos.

É possível que o exercício físico possa ter uma ação protetora à neuropatia diabética pelo fato de alterar componentes microvasculares na diabetes, revertendo por exemplo a redução do Óxido Nítrico (NO) pelo endotélio vascular (10, 11).

A partir dessas evidências, podemos inferir que o prejuízo no fornecimento de sangue aos nervos periféricos podem ser evitadas ou mesmo revertidos pelo exercício.

Um estudo realizado por Balducci e colaboradores em 2006, envolveu pacientes com diabetes sem neuropatia, estes foram matriculados em um programa supervisionado de exercícios que consistia em 4 h de atividade por semana, durante 4 anos. Percebeu-se ao longo dos anos, que menos participantes do grupo praticante de exercícios, desenvolveram a neuropatia em relação ao grupo controle, que não praticou as atividades. Estes resultados sugerem que o exercício pode atrasar ou mesmo prevenir o aparecimento de neuropatia periférica em pacientes diabéticos (12). No entanto, não podemos inferir a partir deste estudo que o exercício pode reduzir ou reverter a neuropatia em pacientes com diabetes já acometidos pela neuropatia periférica.

A modificação do estilo de vida, em pacientes com diabetes acometidos pela neuropatia diabética, demonstrou mudanças positivas na densidade de fibras nervosas intraepidermal e reduções de dor de acordo com a escala analógica visual como visto na pesquisa de Smith e colaboradores em 2006 (13).

No entanto, os efeitos do exercício físico, bem como os mecanismo de como isso ocorre na neuropatia diabética, ainda precisam ser melhor esclarecidos. Com isso, estudos em modelo animal, tem assumido um papel promissor e contribuído para esses esclarecimentos.

Em 2013, Chen e colaboradores, desenvolveram um estudo randomizado em modelo animal onde observaram resultados interessantes. Este grupo de pesquisadores delineou seu estudo da seguinte forma:

Grupo1: Ratos sem diabetes que receberam treinamento físico;

Grupo 2: Ratos sem diabetes sedentários (não receberam treinamento físico);

Grupo3: Ratos com diabetes induzida por Estreptozotocina (STZ)* que receberam treinamento físico;

Grupo 4: Ratos com diabetes induzida por STZ sedentários (não receberam treinamento físico).

Como resultados, observaram que o treinamento físico diminui significativamente os sintomas da dor neuropática associada à diabetes, incluindo hiperalgesia térmica e alodinia (estímulos sensoriais que em situações normais não provocam dor) nos ratos com diabetes (14).

Apesar de ainda haver muito a esclarecer em relação ao tema, a literatura já possuí indícios suficientes para a recomendação do exercício físico em pacientes com diabetes acometidos pela neuropatia periférica e deve fazer parte das orientação dada aos pacientes durante as consultas.

A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) em suas diretrizes atuais (2014-2015) aconselha, em casos mais graves de neuropatia periférica, exercícios sem sobrecarga de membros inferiores como a natação, hidroginástica, bicicleta estacionária e os exercícios de membros superiores, com intuito de poupar a região periférica comprometida.

Em casos de pacientes que já apresentam lesões nos pés, aconselha-se incentivar os exercícios de membros superiores ou aqueles sem efeito da gravidade, como a bicicleta (15).

Além disso, orientações quanto a escolha dos calçados e meias adequadas, devem ser feitas pelos profissionais envolvidos no tratamento bem como a orientação de se examinar os pés diariamente, visando detectar possíveis lesões precocemente (15).

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* Estreptozotocina (STZ) é uma substância química, tóxica para as células beta produtoras de insulina do pâncreas em mamíferos. É utilizado na pesquisa médica para produzir a diabetes em modelo animal, diabetes de Tipo 1 quando administrado em grandes doses e diabetes Tipo 2 quando administrado em baixas doses em múltiplas aplicações.

Referências:

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Snowling NJ, Hopkins WG. Effects of different modes of exercise training on glucose control and risk factors for complications in type 2 diabetic patients: a meta-analysis. Diabetes Care. 2006; 29:2518–2527. [PubMed: 17065697]

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Lemaster JW, Reiber GE, Smith DG, Heagerty PJ, Wallace C. Daily weight-bearing activity does not increase the risk of diabetic foot ulcers. Med Sci Sports Exerc. 2003; 35:1093–1099. [PubMed: 12840628]

Armstrong DG, Lavery LA, Holtz-Neiderer K, Mohler MJ, Wendel CS, et al. Variability in activity may precede diabetic foot ulceration. Diabetes Care. 2004; 27:1980–1984. [PubMed: 15277427]

Lemaster JW, Mueller MJ, Reiber GE, Mehr DR, Madsen RW, et al. Effect of weight-bearing activity on foot ulcer incidence in people with diabetic peripheral neuropathy: feet first randomized controlled trial. Phys Ther. 2008; 88:1385–1398. [PubMed: 18801859]

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Balducci S, Iacobellis G, Parisi L, Di Biase N, Calandriello E, et al. Exercise training can modify the natural history of diabetic peripheral neuropathy. J Diabetes Complications. 2006; 20:216–223. [PubMed: 16798472]

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Chen YW, Hsieh PL, Chen YC, Hung CH, Cheng JT. Physical exercise induces excess hsp72 expression and delays the development of hyperalgesia and allodynia in painful diabetic neuropathy rats. Anesth Analg. 2013; 116:482–490. [PubMed: 23302966]

Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes: 2014-2015/Sociedade Brasileira de Diabetes ; [organização José Egidio Paulo de Oliveira, Sérgio Vencio]. – São Paulo: AC Farmacêutica, 2015.

Fonte: Portal SBD

Autor:William Pereira

-Profissional de Educação Física – CREF: 008802-G/MG

-Mestre em Educação em Diabetes - Instituto de Ensino e Pesquisa Santa. Casa de Belo Horizonte

-Especialista em Exercício Físico aplicado à Reabilitação Cardíaca e Grupos Especiais - Universidade Gama Filho - RJ

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