Quem são os Candidatos ao Implante Coclear? – Crianças

Quem são os Candidatos ao Implante Coclear? – Crianças

O implante coclear é eficaz. Isso é consenso entre os profissionais de saúde e comprovado por diversos estudos científicos. Mas a eficiência do implante coclear é variável, ou seja, os resultados podem ser melhores ou piores de acordo com o paciente. Sendo assim, uma das principais questões referentes ao implante é: quem e quando implantar. Vou dividir esse texto em duas partes, uma sobre crianças e outra sobre adultos. O texto sobre adultos colocarei em breve no blog.

Quais crianças têm indicação de implante e quando devem ser implantadas? Resposta: as crianças que possuem comprovadamente perda auditiva severa a profunda bilateral e que comprovadamente não têm benefício com uso de aparelhos auditivos convencionais (AASIs) e o mais rápido possível. Vou discutir como isso é feito.

As perdas auditivas podem ser congênitas ou adquiridas. As congênitas são aquelas que estão presentes desde o nascimento. As adquiridas são aquelas que aparecem depois do nascimento, podendo piorar em tempo variável. Algumas pioram rapidamente, em poucos meses, como em alguns casos de meningite. Outras evoluem lentamente através de alguns anos, como em alguns casos de perda auditiva genética.

Em relação às crianças com perdas congênitas, o diagnóstico deve ser feito já na triagem auditiva neonatal, nos primeiros dias de vida. Esse processo deve ser orientado pelo médico pediatra ou pelo serviço de triagem auditiva neonatal do Hospital no qual a criança nasceu. Começa com o teste da orelhinha (emissões otoacústicas evocadas) que é um exame simples e rápido. Se a criança não passar nesse teste, deverá ser retestada em cerca de 15 dias. Se não passar novamente, deverá ser submetida a exame de BERA e avaliação com otorrinolaringologista. Se a criança nascer com risco de perda auditiva (UTI, antibióticos, filho de pais surdos, pré-maturidade, etc) deverá ser submetida ao BERA independentemente do resultado do teste da orelhinha.

O BERA nada mais é que um exame audiométrico no qual o paciente não precisa responder para sabermos quais são os limiares auditivos. Ou seja: se o paciente ainda não tem idade ou capacidade para responder a uma audiometria, fazemos o BERA. É feito em cerca de 30 minutos, e o paciente deve permanecer deitado e evitando se mexer durante o exame. Alguns pacientes mais agitados necessitam de sedação leve para a realização deste exame.

Se o BERA mostrar perda auditiva, o paciente deverá ser avaliado por médico otorrinolaringologista para se afastar otites. Depois que isso for feito, o profissional deve encaminhar o paciente para colocação de aparelhos auditivos (AASI). A idade ideal para colocar AASIs é mais cedo possível, assim que a fonoaudióloga conseguir adaptar o molde do AASI. A partir de então, começa um período de avaliação do desenvolvimento da criança. Nesse período, a criança deve ser acompanhada por fonoaudióloga com treinamento para esse tipo de atendimento. Se a criança apresentar bom desenvolvimento linguístico com os AASIs, deverá permanecer com eles. Se o desenvolvimento com os AASIs for insatisfatório, será indicado implante coclear. O implante pode ser feito a partir do momento em que a criança tiver condições de ser submetida à cirurgia (peso, comorbidades, etc). Enquanto a criança não possuir condições cirúrgicas ela deve permanecer em uso dos AASIs.

Esse fluxo que descrevi é o que deve acontecer na maioria dos casos, mas existem algumas exceções, como malformações severas, que tratarei em outro post sobre casos especiais. Lembro também que, apesar de ser lei, a triagem auditiva neonatal nem sempre é feita em nosso país, principalmente em algumas regiões menos favorecidas. Neste caso, os pais devem procurar um médico otorrinolaringologista ou pediatra para que o caso seja corretamente conduzido.

Para os pacientes com perda auditiva congênita, o tempo para a reabilitação é essencial. Deve ser feita o mais rápido possível, pois quanto mais cedo o córtex cerebral receber os estímulos auditivos, melhor ele irá se adaptar e se desenvolver. Crianças implantadas com um ano de idade evoluem muito bem. O sucesso do tratamento vai caindo de acordo com o avanço da idade do paciente surdo sem reabilitação auditiva. A partir dos três anos e meio, o sucesso do tratamento já cai bastante e, a partir dos 6 anos de idade, o paciente com perda auditiva congênita sem reabilitação já terá pouco ou talvez nenhum benefício com o implante coclear. Claro que a idade não é o único fator que influencia o resultado do tratamento. Devemos também considerar: terapia fonoaudiológica, outras doenças do paciente (cognição), empenho da família e do próprio paciente, etiologia (causa) da perda, entre outros.

Sendo assim, indivíduos que nasceram com surdez severa a profunda bilateral, não usaram AASI durante a vida e tem mais de 6 anos de idade não são, via de regra, bons candidatos ao implante coclear. Apesar de haver casos no mundo de pacientes com esse perfil que foram implantados e tiveram benefício, a maioria dos médicos concorda que esses pacientes não devem ser implantados.

Os casos de perda auditiva adquirida em crianças são conduzidos de maneira similar aos casos de perda auditiva congênita, mas com um pouco mais de flexibilidade em relação à idade da implantação. Já que o paciente nasceu com audição funcional, a princípio, teve estímulo do córtex auditivo. O paciente deve ser acompanhado e fazer uso de AASI. Quando a equipe médica e fonoaudiológica atestar que o AASI não apresenta mais resultados satisfatórios para este paciente, ele deve ser encaminhado para o implante o mais rapidamente. Quanto mais tempo de privação sonora o indivíduo tiver, maior será a dificuldade na adaptação ao implante coclear.

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